segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Davi

Sempre acabo acendendo um cigarro a essa hora da tarde, todos os chicletes e adesivos de nicotina desperdiçados, mas não tem graça observar São Paulo da minha janela às 18:00h sem poluir meus pensamentos com as mais de duas mil substâncias tóxicas.

Observar o trânsito nesta hora me faz esquecer os problemas reais: o aluguel do apartamento fodido, as milhares de contas a pagar, a gastrite, o vizinho, a namorada, a amante grávida, meu chefe e sua família nepotista, o porteiro- ele fez o favor de contar pra minha namorada que uma mulher havia subido ao meu apartamento, mas, sabe como é: a desculpa da mãe sempre cola, mesmo se ela mora a mais de 300 quilômetros de distância.

Enquanto todos estão lá embaixo, eu estou aqui, aqui em cima pensando o que quero, livre do trânsito, livre dos gritos, motoboys, táxis, pessoas correndo. A gastrite tem seu ponto positivo quando me polpa ir ao trabalho. Por isso, fico aqui em cima, da janela, a devagar. Começo a pensar na humanidade, seria tão mais simples se todos respeitassem uns aos outros, respeitassem os limites e diferenças e crenças e desejos e ...Mas a humanidade é complexa de mais para tanta simplicidade, da estranha necessidade de não poder estar só, constrói família, amizades, mas é muito individualista para não pensar só, e então destrói fidelidade, trai, mente, corrompe a si. Eu não devo fugir a regra.

Forte tragada.

Enquanto a fumaça sai pela minha boca e narinas, vejo-a subir aos céus de São Paulo, levando com ela meus pensamentos, deve ser por isso que a cidade é tão poluída. Começo a pensar na época em que vim parar aqui, lembro-me dos medos, da raiva que sentia, não agüentava mais ser cobrado pela família, e por mim mesmo por querer agradá-la. Cresci podando meus julgamentos em relação às pessoas, sei como é horrível ser julgado e comparado o tempo inteiro. Merda de frustrações, merda, merda, merda! Por isso estou aqui, vestindo o semi-nú dentro de minha casa, lavando minhas roupas sujas na hora em que quero, fumando o cigarro na hora e da marca que desejo, pago as contas com a vida pelos caminhos que escolhi, mas dessa vez quem escolheu fui eu. Sinto-me aliviado por muitos lados. Eu amo minha família, juro.

De repente a campainha toca, então ponho o sutiã que estava jogado no sofá, blusa e calça me vestiram para eu poder atender à porta: era o porteiro que fez a gentil obrigação de entregar as cartas. Conta, conta, conta, propaganda, carta da família, finalmente depois de tantas coisas inúteis algo interessante, a resposta que esperava de uma revista para eu começar a publicar meus textos. Motivo para comemorar: arranco os adesivos do corpo, cuspo o chiclete pela janela, pego o cigarro que escondi dentro da cesta de remédios, saio para comprar uma carteira de cigarros nova e voltar à minha janela, e voltar a pensar, a pensar com essa mania de me tornar homem, de vestir minhas cuecas e me inventar nesse apartamento, nessa cidade de São Paulo.



*às nossas conversas, natasha.