quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Desde que soube ser feia, e isso aconteceu por volta dos sete anos de idade, não parou mais de comer e de pensar. Com a comida, engordou, com o pensamento, parou.
Sua feiúra era tão feia que seria donzela mesmo se não fosse. Tinha bastantes amigos, mas não convivia com eles, eles amavam e eram amados. Quanto a ela, ela nunca nem sequer provou do gosto de platonizar. Enquanto esses amigos comiam pizza e tomavam vinho em grupo ou em casal, ela comia pizza e tomava vitamina de banana... sozinha (era sua combinação favorita).
Daquela forma, forma solitária de pensar e de comer, sempre se questionava sobre coisas que ninguém se questionara antes – ao menos era o que ela achava. Tinha ficado tão gorda que de um instante para outro se cansou de pensar. As mulheres que não pensam são magras, bonitas, amam e são amadas. Mas não pensam. Mas para quê pensar se não pode amar?
Certa vez um tal homem excêntrico sentado no chão no meio do centro da cidade a parou, enquanto a feiosa suava sob o sol e tomava sorvete . Eles se olharam profundamente durante precisos três segundos, por um instante a solitária achou que aquilo era amar, até que ele soltou em fantástico um segundo: ser diferente te faz melhor.
“Diferente?”, ela pensou sorrindo. “Diferente?”, ela pensou com raiva. Ser diferente a fazia pensativa, ser diferente a fazia solitária, a fazia gorda, a fazia donzela. Ela queria ser igual, igual às mulheres bonitas, amadas e descabaçadas da televisão, das revistas, mais: ela queria ser real.
Desde esse dia pensou mais uma coisa: pensou que era pura desculpa da humanidade afirmar que são boas as diferenças entre as pessoas. Como não podem mudar o fato de elas existirem, empurram-nas encéfalo a baixo. Boas as diferenças? Qual a parte boa de só pensar e comer? Boa para quem? Para quem não as tem? Todo mundo acha lindo pronunciar essas palavras hipócritas, mas quero saber quem em plena juventude quer não ser olhada e desejada?
Tudo implode, implode. Até que explode.
De tanta raiva disso despiu-se por completo, foi à frente de seu espelho gigante (coisa que nunca fazia, pois tinha medo do que poderia enxergar), descabelou-se, cuspiu duas vezes até que acertasse a mira do reflexo de seu rosto, deu-se um tapa na cara e finalmente enfiou o indicador em seu próprio sexo, mas com tamanha raiva que o sangue virgem escorria impuro. Inspirou fundo e expirou aliviada.
Foi ao banheiro e lavou as mãos, dirigiu-se à cozinha, chegando lá, tirou da geladeira o resto da pizza congelada e, gorda, caiu no chão comendo o resto do alimento. Tudo isso porque ela é diferente, se não fosse, também não seria protagonista.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

MAMULENGO DA
TRUPE
APRESENTA VULTOS NEGROS SERGIPANOS

ALUNOS/ATORES:
Texto e Encenação: Boia Leite
Direção:Maria Carneiro
Elenco: Boia leite, Drica Fontes, Elisangela Santana, Franklin Silva, Janielle Backham, Marcelle, Rejane Costa, Ronaldo José,Talita Moraes, Tatiane Dantas, Otaviano Soares, Zelda Leite e Wlyssis Belloah.
DATAS DAS APRESENTAÇÕES:
Local: UNIT. Teatro Tiradentes.Rua de Lagarto s/n.
-Dia 08/12/2008 ás 18: 00 h.
arco da orla da atalaia.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Meu melhor amigo

Tinha crescido. E me impressionou tê-lo reconhecido, apesar das drásticas mudanças físicas. Algo de essência conservou-se nele, não sei se o andar, ou as narinas levemente alargadas, não sei, não faço a mínima idéia de como o reconheci.
Devo ter sido a primeira paixão dele, tiro esta conclusão, pois sabia que era apaixonado por mim, e éramos muito novos para antes de mim ter surgido outra. Ao reler me senti pré-potente. Enfim, nos conhecemos antes da quinta-série, não era a quarta, algo antes disso, mas não consigo recordar com exatidão. Éramos esquisitos, tanto eu quanto ele rechonchudos, os dois branquelos. Opúnhamos-nos quanto à diversão, a dele era passar o dedo indicador pelas paredes da escola como se descrevesse uma linha, a minha era ficar assustada com as histórias sobre o apocalipse contadas por uma amiga minha, quase tão estranha quanto nós.
Impressionante como o tempo passa, mais impressionante ainda é a cara dele de “mesma fisionomia” ao falar comigo, não mudou em nada, ainda que tivesse mudado tudo.
Hoje o vi, estava almoçando sozinha quando o avistei a duas mesas da minha, estava sozinho também. Por um instante esqueci meus problemas para observá-lo, as mãos postas a rezar, os olhos serenos fechados e a mente a agradecer a refeição. De repente os olhos abrem e ele começa a comer como se fosse a última vez, mas não perceber que eu o observava, de longe, mas o obseravava.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Davi

Sempre acabo acendendo um cigarro a essa hora da tarde, todos os chicletes e adesivos de nicotina desperdiçados, mas não tem graça observar São Paulo da minha janela às 18:00h sem poluir meus pensamentos com as mais de duas mil substâncias tóxicas.

Observar o trânsito nesta hora me faz esquecer os problemas reais: o aluguel do apartamento fodido, as milhares de contas a pagar, a gastrite, o vizinho, a namorada, a amante grávida, meu chefe e sua família nepotista, o porteiro- ele fez o favor de contar pra minha namorada que uma mulher havia subido ao meu apartamento, mas, sabe como é: a desculpa da mãe sempre cola, mesmo se ela mora a mais de 300 quilômetros de distância.

Enquanto todos estão lá embaixo, eu estou aqui, aqui em cima pensando o que quero, livre do trânsito, livre dos gritos, motoboys, táxis, pessoas correndo. A gastrite tem seu ponto positivo quando me polpa ir ao trabalho. Por isso, fico aqui em cima, da janela, a devagar. Começo a pensar na humanidade, seria tão mais simples se todos respeitassem uns aos outros, respeitassem os limites e diferenças e crenças e desejos e ...Mas a humanidade é complexa de mais para tanta simplicidade, da estranha necessidade de não poder estar só, constrói família, amizades, mas é muito individualista para não pensar só, e então destrói fidelidade, trai, mente, corrompe a si. Eu não devo fugir a regra.

Forte tragada.

Enquanto a fumaça sai pela minha boca e narinas, vejo-a subir aos céus de São Paulo, levando com ela meus pensamentos, deve ser por isso que a cidade é tão poluída. Começo a pensar na época em que vim parar aqui, lembro-me dos medos, da raiva que sentia, não agüentava mais ser cobrado pela família, e por mim mesmo por querer agradá-la. Cresci podando meus julgamentos em relação às pessoas, sei como é horrível ser julgado e comparado o tempo inteiro. Merda de frustrações, merda, merda, merda! Por isso estou aqui, vestindo o semi-nú dentro de minha casa, lavando minhas roupas sujas na hora em que quero, fumando o cigarro na hora e da marca que desejo, pago as contas com a vida pelos caminhos que escolhi, mas dessa vez quem escolheu fui eu. Sinto-me aliviado por muitos lados. Eu amo minha família, juro.

De repente a campainha toca, então ponho o sutiã que estava jogado no sofá, blusa e calça me vestiram para eu poder atender à porta: era o porteiro que fez a gentil obrigação de entregar as cartas. Conta, conta, conta, propaganda, carta da família, finalmente depois de tantas coisas inúteis algo interessante, a resposta que esperava de uma revista para eu começar a publicar meus textos. Motivo para comemorar: arranco os adesivos do corpo, cuspo o chiclete pela janela, pego o cigarro que escondi dentro da cesta de remédios, saio para comprar uma carteira de cigarros nova e voltar à minha janela, e voltar a pensar, a pensar com essa mania de me tornar homem, de vestir minhas cuecas e me inventar nesse apartamento, nessa cidade de São Paulo.



*às nossas conversas, natasha.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

À mesa

Um brinde à saúde anunciava o início da ceia.

Os pratos decorados, as taças enfileiradas de acordo com o tamanho, os talheres "inox" polidos, arrumados para cada tipo de prato refinavam o jantar àquela mesa. A comida saída a pouco do forno atiçava a fome dos indivíduos ali presente. A orquestra sinfônica representada pelos talheres e copos sendo movimentados quebrava o silêncio total do ambiente. O mastigar da comida era uma atividade ininterrupta, finalizada com um sorriso de satisfação do primata sem pêlo, faminto. A sobremesa era apelada e desejada por todos, à primeira colherada se escutava os gemidos de satisfação, mais comparado ao gozo animal.

O arrastar de cadeiras era único, e finalizava a última refeição daquele dia.


(talita moraes, 2005)

terça-feira, 26 de agosto de 2008

A cópula

A mão deslizava sobre seus olhos forçando-os a fechar (delicadamente). Foi seguido por um sorriso feminino.
Os lábios masculinos impulsionados pelo extinto animal humano não resistem e tornam a vontade num desejo realizado. Foi um beijo dado.
As mãos unissex uniam-se entrelaçando a vontade de estar junto (pelo menos naquele instante).Foi assim um abraço consumado.
O contornar das mãos masculinas pelo corpo feminino não deixava dúvidas de suas vontades. Foi seguido por um sussurro.
Sem pressa deitava o corpo feminino, sem pressa beijava a boca feminina, sem pressa esculpia o já esculpido, com pressa despia o corpo feminino, com pressa degustava do beijo vindo da boca feminina, com pressa ousava do já ousado.
Era esquecida a hora, não importava os segundos, transformando aqueles milésimos em séculos.
Era hora de apagar a luz....

(Moraes, Talita – 13/07/2005)