Desde que soube ser feia, e isso aconteceu por volta dos sete anos de idade, não parou mais de comer e de pensar. Com a comida, engordou, com o pensamento, parou.
Sua feiúra era tão feia que seria donzela mesmo se não fosse. Tinha bastantes amigos, mas não convivia com eles, eles amavam e eram amados. Quanto a ela, ela nunca nem sequer provou do gosto de platonizar. Enquanto esses amigos comiam pizza e tomavam vinho em grupo ou em casal, ela comia pizza e tomava vitamina de banana... sozinha (era sua combinação favorita).
Daquela forma, forma solitária de pensar e de comer, sempre se questionava sobre coisas que ninguém se questionara antes – ao menos era o que ela achava. Tinha ficado tão gorda que de um instante para outro se cansou de pensar. As mulheres que não pensam são magras, bonitas, amam e são amadas. Mas não pensam. Mas para quê pensar se não pode amar?
Certa vez um tal homem excêntrico sentado no chão no meio do centro da cidade a parou, enquanto a feiosa suava sob o sol e tomava sorvete . Eles se olharam profundamente durante precisos três segundos, por um instante a solitária achou que aquilo era amar, até que ele soltou em fantástico um segundo: ser diferente te faz melhor.
“Diferente?”, ela pensou sorrindo. “Diferente?”, ela pensou com raiva. Ser diferente a fazia pensativa, ser diferente a fazia solitária, a fazia gorda, a fazia donzela. Ela queria ser igual, igual às mulheres bonitas, amadas e descabaçadas da televisão, das revistas, mais: ela queria ser real.
Desde esse dia pensou mais uma coisa: pensou que era pura desculpa da humanidade afirmar que são boas as diferenças entre as pessoas. Como não podem mudar o fato de elas existirem, empurram-nas encéfalo a baixo. Boas as diferenças? Qual a parte boa de só pensar e comer? Boa para quem? Para quem não as tem? Todo mundo acha lindo pronunciar essas palavras hipócritas, mas quero saber quem em plena juventude quer não ser olhada e desejada?
Tudo implode, implode. Até que explode.
De tanta raiva disso despiu-se por completo, foi à frente de seu espelho gigante (coisa que nunca fazia, pois tinha medo do que poderia enxergar), descabelou-se, cuspiu duas vezes até que acertasse a mira do reflexo de seu rosto, deu-se um tapa na cara e finalmente enfiou o indicador em seu próprio sexo, mas com tamanha raiva que o sangue virgem escorria impuro. Inspirou fundo e expirou aliviada.
Foi ao banheiro e lavou as mãos, dirigiu-se à cozinha, chegando lá, tirou da geladeira o resto da pizza congelada e, gorda, caiu no chão comendo o resto do alimento. Tudo isso porque ela é diferente, se não fosse, também não seria protagonista.
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4 comentários:
o que sinto é que...
se fosse tão igual não teria umas frases escritas só pra ela.
ela deve ser odiar por isso!
Arrocha tchÊ!
Ótimo texto. A hora da Estrela é um dos melhores textos de Clarice que sabe nos emocionar!!!
gostei muito (:
vou adicionar no meeu...
=**
Ainda quero o prazer de escrever contigo. Não canso de repetir.
Um beijo.
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